Quaresma
40 Dias de Fogo no Silêncio do Claustro
17 de Fevereiro - 28 de Março de 2010

 


A passos rápidos caminhamos para a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Mistério central da nossa fé! Mistério imperscrutável, Mistério sempre novo, Mistério sempre admirável... Mistério que nos revela a insondável grandeza do amor - amor infinito - do nosso Deus e Redentor.
Deus, que assumiu a nossa condição humana em Belém, prepara-se agora para assumir a nossa morte, no Calvário, para nos dar a Sua Vida. Jesus enfrenta tudo e tudo suporta para conquistar para todos nós o gozo infinito e eterno da Mansão do Pai.
Mistério de Amor que quanto mais se perscruta, medita e contempla, mais nos abisma numa desconcertante e pasmosa admiração!
Numa derradeira peregrinação sobre a terra, Jesus caminha para Jerusalém, para a Sua Paixão e Morte... e a Santa Igreja, a Esposa amada e amante, não O deixa nunca. Escutando a voz do Esposo Divino, que a chama com voz ardente de amor, ela sai de si mesma, veste-se com a túnica nupcial da penitência e, assim revestida, corre, apressada e contemplativa, no encalço do Amado!
Onde está o Esposo..., aí deve estar a Esposa!!!

Depois das Cinzas...

No Claustro, a cinza abençoada de Quarta-feira de Cinzas, arde permanentemente, cheia de vigor e de força, na morada secreta do coração da Comunidade. Com um ardor desusado, ela desafia-nos a fazer uma viagem interior de conversão e penitência; convida-nos a empreender uma peregrinação única e invulgar, de quarenta dias, ao Santuário do Amor imenso e oblativo do Senhor; e chama-nos... ao deserto, um deserto comunitário e pessoal, onde toda a palavra humana sobeja e o silêncio fala a linguagem de Deus.
Aqui, o desafio do Evangelho é forte, é vivo e é provocante. É uma torrente caudalosa que nos toca, nos invade, nos abraça e nos submerge... numa onda perfumada e eloquente que é simplesmente o olhar ferido de amor do nosso Deus.
Sem pronunciar palavra, Deus mostra-nos a banalidade de tantas vidas dispersas, precipitadas no mundo prazer, do ter e do poder..., e pede-nos um renovado radicalismo evangélico, mais belo e mais audaz; mostra-nos tantas Igrejas sem fiéis, tantos Sacrários abandonados pelo mundo inteiro..., e pede-nos mais companhia, mais adoração, mais desagravo; mostra-nos o íntimo de tantas almas dominadas pelo mal, pelo ódio e pela violência..., e pede-nos mais amor, muito mais amor; e, por fim, mostra, sem pronunciar palavra, com o Coração trespassado de tristeza e dor, o rosto de uma multidão de homens e mulheres, Cristãos de nome e de baptismo, que vivem submersos num total indiferentismo religioso, agindo como se Deus não existisse..., e pede-nos mais oração e mais penitência!
A Quaresma é um tempo marcado pelo sinal mais!!!
Sim, Jesus chama-nos e desafia-nos hoje mais do que nunca! O Amor pede o nosso amor, a Vida pede a nossa Vida, Aquele que é Tudo pede o nosso tudo!...

No Claustro de Clara

 Quaresma no Mosteiro é a alegria de um novo encontro com o Senhor e de uma nova caminhada, mais intimista, mais silenciosa, mais intensa. Oração e penitência!...
O dia inteiro é adoração de louvor e reparação ao Divino Sacramento, mas adoração trespassada por uma emoção nova, por uma nova inquietude do coração e por um novo olhar interior. O Coração da Igreja dobra os joelhos, escuta a voz do Esposo e, com amor renovado, bebe as Suas palavras meditando-as longamente no segredo da cela interior.
Oração e penitência!
À voz do Senhor abre-se um mundo novo que chama e desafia a escalar as alturas sublimes do próprio Amor de Deus. “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!” é o eco silencioso e vivo que queima como fornalha ardente os nossos corações. “Amar” é o imperativo que nos dirige, “Amar” é o desafio que nos lança, “Amar” é a missão, missão tão antiga e sempre nova que nos apresenta, sem dúvida incompreensível e louca para muitos, mas sábia e infinitamente doce para nós, contemplativas. Amar... dando a vida para que todos tenham a Vida!...
Oração e penitência!
O olhar da Mãe Santíssima cruza o nosso olhar mergulhando-o num sorriso indizível de ventura. Mestra do silêncio, da adoração e do amor casto! Maria é presença viva e permanente que guia os nossos passos nesta Quaresma, numa confiança absoluta, num total abandono à vontade do Pai e num desejo certo, radical e absoluto de dar mais, sempre mais, até ao dom total. “Fazei tudo o que Jesus vos disser!” é a palavra que nos dá e o convite que nos apresenta... profética palavra que gera gozo e deslumbramento, entusiasmo sempre renovado e uma nova vontade de continuar começando tudo de novo. Dar a vida a cada momento, com um sorriso de gratidão e de alegria impresso na alma e no coração, sorriso feliz e realizado neste amor fraterno, que congrega a Comunidade em torno do Mestre, em torno do Cordeiro de Deus, em torno do Esposo Divino...
Oração e penitência!
Do Coração da Comunidade eleva-se o grito silencioso e uníssono: Vamos com Ele!
Sim, queremos seguir o Senhor, acompanhá-Lo sempre, escutar a voz do Seu Coração e ler os segredos ocultos da Sua Alma...; queremos adivinhar-Lhe os gostos, os desejos, as vontades... e amá-Lo, amá-Lo como Ele nunca foi amado sobre a terra!!! Este é o sonho, a luta, a ambição desmedida e ardente, nunca suficientemente satisfeitas, no Coração feliz e insatisfeito do Claustro.
Jesus oferece-nos a Sua Vida morrendo por nós e nós oferecemos-Lhe a nossa vida vivendo por Ele! Duelo de amor que é permuta, comunhão e doação... Duelo de amor que é também a nossa plena realização e a nossa profunda alegria!
Na Quaresma, o mundo do Claustro transforma-se, renova-se, transfigura-se. O horário permanece o mesmo e o edifício é o mesmo de sempre, mas a alma do Mosteiro, esse universo interior que o habita e preenche, afunda-se mais e mais, sempre mais, num abismo invisível de fogo e de amor, de gozo e de dor, que é todo intimidade com o Senhor...
Como é a vivência da Quaresma aqui, no Claustro de Santa Clara? As palavras que escrevemos não pintam mais que a superfície de uma realidade que é em si indescritível...
Quaresma é um tempo forte de silêncio contemplativo, de penitência e de oração mais intensas. Quarenta dias de fogo que precedem e preparam o Mistério fundamental da nossa fé, o Mistério central das nossas vidas, o Mistério que é a certeza única e a única sabedoria do nosso coração: Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus Cristo.

 

Quarta-Feira de Cinzas
“ Arrepende-te e acredita no Evangelho!”
17 de Fevereiro de 2010
 

Com a Celebração da imposição das cinzas, tem início um novo Tempo Litúrgico: a Quaresma. No Coração da Igreja este é um tempo muito especial, um tempo forte, um tempo “de fogo” dentro de toda a intensa dinâmica do grande Ano Litúrgico.
Com palavras simples e incisivas, o Missal Romano, na introdução que apresenta, esclarece sobre o significado e a importância desta celebração na vida do Cristão:

«A Igreja, através da celebração simbólica da imposição das cinzas, quer que reconheçamos a nossa condição e pecadores e nos dispunhamos a aceitar com humildade a morte temporal como consequência do pecado.
Quer igualmente que nos comprometamos a lutar contra o pecado, durante a Quaresma, confiados na ilimitada misericórdia de Deus que “não deseja a morte do pecador, mas antes que se converta e viva”.
Com o apelo à conversão, expresso na celebração da imposição das cinzas, a Igreja dirige-nos também um convite ao jejum.
Renunciando a uma parte importante do seu alimento, o Cristão manifesta a sua disponibilidade em seguir o Senhor e em amá-Lo acima de todas as coisas materiais e exprimir a sua solidariedade com tantos homens privados de alimento, de meios económicos, de bens culturais e de possibilidade de progresso.
Tempo de conversão, a preparação para a Páscoa deve transformar-se em “Quaresma e Fraternidade”».
 

Cinzas
 

À medida que o Sacerdote impõe as cinzas benzidas sobre a cabeça de cada fiel, escuta-se a voz do Ministro Sagrado que repete, num eco solene e duradoiro, a grande mensagem de conversão de Deus no meio dos homens: “Arrependei-vos e acreditai no Evangelho”.
Cinzas!
Para iniciar uma vida inteiramente nova é necessário reduzir a cinzas os ecombros arruinados de uma vida cheia de vícios; é necessário reconhecer a mesquinhez egoísta de tantas lutas sem sentido; é necessário descobrir, no meio das trevas densas do mundo - martirizado pela violência, pela degradação dos valores e pela morte temporal e espiritual de tantos inocentes - a Luz que verdadeiramente ilumina, que afasta a treva e que dá novo sentido à vida.
Cinzas!
Com o pó fino e cinzento que vai caindo sobre as nossas cabeças, cai também sobre o coração meditativo as grandes perguntas, perguntas inquietas e inquietantes, da nossa condição humana: Quem sou eu, verdadeiramente? Que faço? Para onde vou?
A cinza toca-nos, penetra a nossa alma e confronta-nos com a nossa realidade mais íntima: “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás-de tornar”. Realidade verdadeira da nossa condição: “O homem é como sombra que passa e é em vão que se agita...”, diz o salmista.
Cinzas!
Cinzas sábias e prudentes, cinzas que revelam ao homem aquilo que ele é e aquilo que ele deve ser, cinzas que transportam uma nova luz, uma nova inteligência, um novo desafio. Desassombradamente, elas pregam o arrependimento, movem à reconciliação com Deus e com os irmãos e convidam à conversão. “Rasgai os vossos corações”, adverte o profeta; “Reconciliai-vos com Deus”, clama o Apóstolo; “Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação”, canta a Igreja, cheia de júbilo e de esperança, neste dia.
Cinzas!
Cinzas salutares que nos apontam o Caminho, que nos revelam a Verdade e que nos oferecem a Vida. Não é tempo de tristeza nem de luto, mas é tempo de conversão e de vida nova: Tempo do Amor!...